Benedicto de Oliveira Paiva nasceu em 12 de novembro de 1889, em Sant’Ana de Pirapetinga-MG, filho de Augusto de Oliveira Paiva, que era ferroviário, e de Bellisa Fontes Paiva. Aos 18 anos, foi para o Rio de Janeiro e conseguiu emprego no jornal “O Puritano”. Sua história com Lavras e com a Escola Agrícola de Lavras (ESAL) se entrelaça de modo decisivo com o auxílio do Rev. Américo de Menezes, que intermediou a sua entrada para estudar no Instituto Evangélico (atual Instituto Presbiteriano Gammon). Mesmo com a situação difícil, inclusive para adquirir itens básicos como lápis de escrever, era só o começo do êxito de Benedicto na educação.

 Entre 1912 e 1914, graduou-se em Agronomia pela ESAL, integrando a sexta turma e destacando-se com notas de “distinção” e “plenamente”. Entre os irmãos, foi o único a cursar o ensino superior. Enquanto estudante, também atuou como editor do jornal “O Pardal”, assinando muitas vezes com pseudônimo. Por influência das pregações do Dr. Samuel Gammon, converteu-se ao protestantismo.

Mérito do Serviço Público

Após sua formatura, permaneceu na Escola de março de 1915 a 1924, atuando como professor das disciplinas de Genética e Agrologia. Nesse mesmo período, foi contemplado com uma bolsa de estudos nos EUA (1918–1919), onde cursou Química, Bacteriologia, Solos e Genética na Iowa State College of Agriculture and Mechanic Arts. Já era casado com a Sra. Maria José Fernandes, que permaneceu no Brasil durante sua viagem. O casal teve oito filhos: Augusto, Belisa (professora do Kemper, nascida em 1/3/1917), Anna, Daniel, Esther, Jorge, Cézar, Letícia e Paulo — este último falecido antes de completar um ano.

diploma de benedicto de oliveira paiva
Mérito do Serviço Público

Ao retornar do período de treinamento no exterior, em 1920, reassumiu sua posição na Escola Agrícola. No ano de 1923, atuou também como secretário da Escola, fazendo parte da Congregação.

Na sua ativa carreira acadêmica, realizou várias publicações científicas, enriquecendo os conhecimentos da época. Um destaque foi a tradução do artigo “Hibridação de Plantas”, de autoria de Gregor Mendel, para os alunos do Instituto Evangélico, que foi publicada nas edições de junho, agosto e outubro de 1922 da revista “O Agricultor”. A tradução, devidamente autorizada, foi realizada a partir do texto original publicado na revista Journal Royal Hort. Society, vol 26, part I, Agosto 1901. Numa época em que poucas pessoas tinham conhecimento de outros idiomas, este texto se tornou uma rica fonte de informação.

Em 1925, publicou um dos primeiros livros didáticos em genética (senão o primeiro no Brasil), intitulado “Apontamentos de Genética: Elementar e Aplicada”, que se encontra disponível na Coleção de Obras Raras e Especiais da Biblioteca Central da UFLA. Na autoria da obra, identifica-se como “Prof. de Genética, Agrologia e Chimica Agrícola da Escola Agrícola de Lavras”.

A partir de 1923, licenciou-se da Escola Agrícola de Lavras e passou a prestar serviço para o Estado de Minas Gerais. Em outubro de 1925, foi nomeado chefe de Química da Estação Experimental de Ponta Grossa, no Paraná; no entanto, não chegou a assumir o cargo, pois em novembro do mesmo ano, foi transferido para a Estação Experimental do Rio Grande do Sul. De 1929 a 1936 atuou como diretor da Estação Experimental das Colônias em Veranópolis (RS).

Mesmo atuando fora da Escola, continuou como Consultor do periódico O Agricultor nas áreas de Solos, Adubos e Química, especificamente na seção de perguntas e respostas. Na sua vida pessoal, em 1930, enfrentou o falecimento de sua primeira esposa. Mais tarde, casou-se com a Sra. Hortência Canini Paiva, com quem teve dois filhos: Izabel e Júlio.

Em 1937, ocorreu um feito inédito tanto para Benedicto quanto para a ESAL: ele se tornou o primeiro brasileiro, e também ex-aluno, a assumir a diretoria da instituição.

Mérito do Serviço Público

 

Durante a sua gestão, realizou relevantes ações, como a construção do Pavilhão Odilon Braga, inaugurado em 1937, durante a 10ª Exposição Agropecuária. O prédio abrigava um anfiteatro para 350 pessoas e uma sala nobre para 220, além de biblioteca, sala de visitas, secretaria, quatro grandes laboratórios e seis salas de aula. Desta forma, foi possível uma melhor distribuição e ampliação dos laboratórios para aulas e pesquisas e, com isto, ampliar o número de alunos aceitos na escola. A urbanização da escola também foi priorizada com a criação de novas avenidas, parques, jardim e campo experimental.

Ao deixar a direção da Escola em 1938, foi para Coronel Pacheco (MG), em razão da nomeação de assistente biologista da Estação Experimental de Café. Em 1939, aprovado em concurso público do Ministério da Agricultura, foi designado à Estação Experimental de Trigo de Engenheiro Englert em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. No entanto, antes de assumir, foi convidado pelo governo do Rio Grande do Sul e retornou à Secretaria de Agricultura do Estado, fixando residência em Júlio de Castilhos, onde se aposentou. Em 1958, mudou-se para Porto Alegre, onde faleceu em 26 de março de 1974, aos 84 anos.


Carlos Gayer e Benedicto de Oliveira Paiva, durante toda a década de 1920 e início de 1930, realizaram um trabalho pioneiro de melhoramento de trigo, que resultou na seleção e criação de cultivares adaptados a solos ácidos. Sob a responsabilidade do Dr. Benedicto Paiva, na Estação Experimental Alfredo Chaves (atual Veranópolis, RS), destaca-se o desenvolvimento das variedades Frontana, Rio Negro, Bagé, Colônia, Combate, Carazinho, Prelúdio, Bandeirante, Farrapo, Nordeste, Alegrete, Piratininga e Trapeano. Estas variedades apresentam resistência à ferrugem e ao carvão, com ciclos que variam entre tardios, semiprecoces e precoces. A relevância desse trabalho foi tal que mereceu registro na Enciclopédia Barsa (Vol. 13; Benton, 1975), uma das principais fontes de consulta bibliográfica antes da era digital e das plataformas de busca.

Ainda na Estação Experimental de Veranópolis, desenvolveu as cultivares de trigo Novosurto e Riosulino, obtidas por seleção de linhagens puras. Criou também as variedades Farrapo e Trintecinco (esta última em homenagem ao centenário da Revolução Farroupilha, em 1935), obtidas por meio de cruzamentos. Além disso, selecionou o milho quarentão e a cultivar de aveia Moravia 2, além de ter iniciado um serviço sericícola e a multiplicação de porta-enxertos de videiras resistentes à filoxera (Cunha e Paiva, 2000).

Pesquisou por muitos anos o crestamento do trigo, mal que se manifesta na fase inicial de desenvolvimento. Segundo alguns pesquisadores, essa denominação é atribuída ao Dr. Benedito, assim como o termo "blocos ao acaso". Em suas pesquisas, também observou variações na resistência ao pH do solo entre diferentes variedades. Assim, lançou também as cultivares Trintani, Colônia, Combate, Patriarca, dentre outras (Cunha e Paiva, 2000).

Em 1944, seu trabalho “Seleção e Adubo” — traduzido para o inglês como Selection and Fertilization — foi publicado nos anais Plant Adaptation to Mineral Stress in Problem Soils (Beltsville, Maryland, EUA, 1976). Foi um dos pioneiros na realização de cruzamentos entre trigo e centeio, que, anos depois, com a duplicação cromossômica, deram origem ao triticale (Cunha e Paiva, 2000). Além disso, no biênio 1953/1954, produziu o primeiro milho híbrido nas estações experimentais do Rio Grande do Sul. Em 1965, lançou a cultivar de trigo Toropi, a última de uma extensa e rica série produzida no programa de melhoramento conduzido por ele.

 

Reconhecimentos e destaques

Em 1967, o Dr. Benedito recebeu a Louvação do governador do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti (Portaria n. 47/67, 20/01/1967), em reconhecimento aos relevantes trabalhos de pesquisa para o desenvolvimento da cultura do trigo e pela criação da cultivar Toropi, em 1965 (Cunha e Paiva, 2000). No ano seguinte, em 1968, foi novamente condecorado pelo Governo do Estado com a “Ordem do Mérito do Serviço Público”. Essa trajetória de reconhecimento somava-se à sua atuação anterior como avaliador, tendo integrado a comissão julgadora da 1ª Exposição de Produtos Agrícolas do Estado de Minas Gerais, em julho de 1937, e a comissão da Exposição do Centenário Farroupilha, em 1935, na categoria de gramíneas.


Sua presença institucional também foi marcante como membro do Conselho Técnico da Associação Mineira de Agronomia, em 1934. Dois anos antes, em 1932, ele havia recebido correspondência do Dr. J.C. Belo Lisbôa, diretor da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Minas Gerais, confirmando sua contratação para dirigir o Departamento de Biologia e atuar como professor a partir de 1933; apesar da nomeação formal, entretanto, não constam outros registros sobre o exercício dessas funções. Já em Júlio de Castilhos, sua contribuição educacional deu-se como professor catedrático de inglês no ensino secundário do Ginásio Estadual Castilhense.

No âmbito pessoal, são muito conhecidas pela família as palavras do Dr. Benedito, que refletiam as percepções de sua época: “Como vencer neste país com o nome de Benedicto?”. Além de sua atuação profissional e acadêmica, ele foi membro da Loja Maçônica desde 1948, instituição onde prestou o juramento de defender o progresso humano.

Agradecimentos

À Izabel Paiva Aydos, filha do Dr. Benedicto Oliveira Paiva, pela atenção, pelas informações e, sobretudo, pelos documentos e fotografias do acervo da família e que foram destinados ao Museu Bi Moreira.

 

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