Tração mecânica - Tratores
“Desde que se cultiva o solo, desde que appareceram as primeiras machinas agrícolas, a tracção ocupa um logar de magna importância na agricultura.
Com o aparecimento do arado, que não passava então de dois paus unidos em ângulo agudo e em cujo vértice notava-se um pequeno pedaço de ferro, o homem foi o seu primeiro trator; fraco e sem resistência... Legou a outrem sua missão e acho no boi o seu amigo e substituto.
No entanto o homem sempre investigador e progressista foi se esquecendo pouco a pouco seu amigo de outr’ora e já lançava a vista em novos horizontes, talvez mais amplos.
...
Precisavam de uma tracção mais rápida e foi nesta phase que a cavalar e muar ganhou terreno, difundindo-se por todo o mundo agrícola.
... Com a sede de progredir, caminhando sempre para o ideal, eis que surge o homem com sua nova invenção. É o tractor mechanico, mais forte e resistente, que nem por isto presta maiores serviços à agricultura que seus precedentes.”
Quando os americanos chegaram a Lavras e instalaram a Escola Agrícola (EAL), em 1908, todas as atividades nas áreas rurais eram realizadas manualmente ou com o auxílio de animais.
Os professores da Escola tinham a missão de melhorar as práticas agrícolas na região e no Brasil. Para isso, iniciaram a importação daquilo que havia de mais moderno na época: uma máquina capaz de tracionar e fornecer potência para ferramentas e implementos, com tecnologia capaz de revolucionar a agricultura no país, o “trator”.
A novidade foi destaque na revista “O Agricultor”, número 5, publicada em maio de 1929.
Nesta edição, o professor Walter Wolf Saur, afirma que o trator naquela época não tinha muita aceitação na agricultura brasileira, principalmente por se tratar de um equipamento de valor elevado e com muitas despesas de manutenção. Por desconhecimento, também era considerado ineficiente pelos agricultores adaptados ao sistema braçal. Para outros, era considerado uma “máquina do futuro”.
Além disso, as impressões negativas relacionadas ao trator estavam baseadas em dois argumentos fundamentais: a topografia que não favorecia e o elevado custo com combustíveis, que na época era gasolina ou querosene (O Agricultor, 1930). De qualquer forma, o trator ainda poderia ser considerado uma máquina útil pois possuía a característica de economizar tempo e energia muscular, em atividades como aração, gradagem, cultivo e outras atividades agrícolas. Em relação ao custo de aquisição argumentava-se que não era tão elevado, pois era equivalente aos automóveis mais baratos como o “Ford” ou “Chevrolet”. Apesar das resistências, o prof. Saur acreditava no uso do trator, como item fundamental para contribuir com o “bem-estar e a prosperidade do Fazendeiro moderno e progressista”.
Antes disso, na 2ª Exposição Agropecuária de Lavras, em 1923, foi realizada a demonstração de desempenho do trator Fordson Model F, que havia sido recentemente importado dos EUA, fabricado em Michigan em 1922. Esta foi uma das grandes atrações, que possibilitou aos agricultores a oportunidade de ver “ao vivo” a máquina trabalhando e demonstrando as habilidades para suprir um problema que já era registrado na época: a falta de mão de obra no campo (O Agricultor, 1923).
O Fordson Model F foi o primeiro trator de pequeno porte produzido em série no mundo, com chassi monobloco, inovador para a época. Apresentava motor, caixa de transmissão e redução final em uma estrutura modular compacta e versátil. Este modelo foi fabricado entre os anos 1917 e 1928, com motor de 4 cilindros (~20HP), movido à querosene, mas adaptável à gasolina. Foi um grande marco na agricultura da época.
Esse automóvel é hoje o mais antigo de Lavras e o primeiro trator deste modelo em Minas Gerais. Acredita-se também que seja um dos primeiros do Brasil.
Foi tombado pelo patrimônio municipal de Lavras e totalmente restaurado, em 2025, voltado para suas suas cores originais de fabricação. O trabalho foi realizado pelos alunos do curso de Agronomia, durante a disciplina Máquinas e Mecanização Agrícola, semestre 2025/1, como parte do projeto de extensão “Máquinas Históricas” do Departamento de Engenharia Agrícola da UFLA.
Fotos de Aldir Carpes Filho, 2025.
Fotos de Aldir Carpes Filho, 2025.
Os custos do uso de um trator na mecanização de uma propriedade rural foram discutidos em vários artigos, o que incluía as despesas com combustível, óleo, juros, amortização e reparos. Chama atenção que os custos se referiam-se a apenas as máquinas, sem incluir a mão-de-obra (Knight, 1924).
(O Agricultor, junho 1930)
Outro trator que compõe o acervo de máquinas históricas da UFLA é um pequeno trator de rabiças inglês. O “Trator de rabiças” foi importado para o Brasil na década de 1940. Possui motor de 4 tempos monocilindro, com 5,3HP de potência. Está equipado com uma enxada rotativa e era utilizado para cultivo do solo e manejo de lavouras hortícolas da Escola Agrícola e ESAL. Embora de pequeno porte, o trabalho realizado por este trator era equivalente ao trabalho de 50 homens (Projeto de Extensão Máquinas Históricas, DEA/UFLA).
Em exposição no Campus UFLA
Foto: Patricia Paiva, 2025
Em exposição no Campus UFLA
Foto: Patricia Paiva, 2025
Em exposição no Campus UFLA
Foto: Patricia Paiva, 2025
Trator Case
Este trator, fabricado na década de 1930, chegou na Escola Agrícola entre os anos 1935 a 1940. Considerando também um dos primeiros tratores do Brasil. Foi utilizado em aulas práticas e também em diversas demonstrações para agricultores. O equipamento tem rodados de aço, pois não existiam os rodados pneumáticos (pneus). A máquina possui chassi em ferro fundido sob sistema monobloco (motor, caixa de transmissão e redução final unidos) e diversos pontos de união com pinos e parafusos, visto que os processos de soldagem eram incipientes na época. (Projeto de Extensão de Máquinas Históricas, DEA/UFLA).
Trator Ford 600
O Trator Ford 600 foi produzido em 1954 em comemoração ao Jubileu de Ouro pelos 50 anos, mas sem o emblema comemorativo à sua frente.
A linha de tratores produzidos com três dígitos tinha melhorias da série NAA e passaram a ser denominados NCA. O modelo 600 incorporava freios e retentores de rodas aprimorados, além de uma TDP padrão conforme as normas da ASAE. Os tratores NAA, tinham uma transmissão padrão de quatro marchas, com possibilidade de incluir marchas auxiliares. Apresentava sistema hidráulico, motor a gasolina de quatro cilindros em linha com válvulas no cabeçote e 134 polegadas cúbicas, capaz de gerar 32 HP.
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Fotos: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Juntamente com os tratores, os implementos eram fundamentais para garantir um bom trabalho no campo. Alguns destes antigos equipamentos encontram-se em exposição no Campus Sede da UFLA.
Sulcador agrícola mecanizado
Este implemento foi utilizado na Escola Agrícola e ESAL desde a década de 1930. A função era a abertura de sulcos para plantio de culturas como café, cana-de-açúcar e citros. Também auxiliaram na abertura de canais de escoamento de água e drenagem de terrenos (Projeto de Extensão de Máquinas Históricas, DEA/UFLA).
Departamento de Engenharia Agrícola/UFLA
Foto: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Sulcador agrícola mecanizado
Departamento de Engenharia Agrícola/UFLA
Foto: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Arado de discos
Implemento também utilizado na Escola Agrícola e ESAL desde a década de 1930, era uma alternativa para os arados de aiveca. Como os discos realizam movimento rotativo, este equipamento permitia o trabalho em solos mais secos e com a presença de obstáculos como rochas e restos vegetais (Projeto de Extensão de Máquinas Históricas, DEA/UFLA).
Departamento de Engenharia Agrícola/UFLA
Foto: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Sulcador agrícola mecanizado
Departamento de Engenharia Agrícola/UFLA
Foto: Sérgio Augusto da Silva, 2025
Subsolador de hastes parabólicas
Destinado ao uso em aulas práticas e pesquisa, este implemento, da marca Maschietto foi adquirido na década de 1990. É utilizado para desagregação de camadas compactadas do solo, abaixo de 40 cm.
Foto: Patricia Paiva, 2025
Foto: Patricia Paiva, 2025
Motoniveladora mecanizada
Utilizada desde a década de 1970 na ESAL, a motoniveladora mecanizada de arrasto é importante para a construção e manutenção de estradas rurais, nivelamento de solos e sistematização geral de terrenos agrícolas. Possui uma lâmina horizontal ajustável, o que permite atuar em diferentes ângulos verticais e horizontais de ataque.
Referências
Bottrel, F. A tracção no Brasil. Agricultor v.1, n.2 1922
Ford NAA tractor. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ford_NAA_tractor
HUNNICUTT, B.H. Duas décadas do desenvolvimento agrícola do Brasil. O Agricultor, 1927 ano VI, n.1. p.9-10, 23, 29-31.
KNIGHT, C.C. A influência das machinas agrícolas sobre o trabalho. O Agricultor, set. 1923. ano II, n.9, p.7-8
KNIGHT, C.C. Umas considerações sobre o tractor. O Agricultor, 1924. ano III, n.13.
Quick ID Ford Tractors '39-'64. Disponível em:
https://web.archive.org/web/20141220022204/
http://www.oldfordtractors.com/identify.htm
_____O Tractor - uma machina util? O Agricultor, maio 1930. ano IX, n.5. p. 5-8
SAUR, W.W. O Tractor. O Agricultor, 1929. p.11-12, 17
____ Um novo campeão mundial. O Agricultor, ano IX, n.6 junho 1930. p-10-11.
Aula prática, Esal 1958.
Dirigindo o trator, a aluna Ana Maria Correa de Figueiredo (única mulher da turma).
Dentre os alunos, Alysson Paulinelli (sexto a partir da esquerda)