Antigo livro de receitas em PDF

Quando os americanos chegaram em Lavras para a missão evangélica que deu origem à Escola Agrícola de Lavras (EAL), a cidade ainda estava em formação, com quase nenhuma estrutura. De acordo com relatos encontrados no diário de um deles, a cidade foi assim descrita: “Lavras era uma cidade datada dos dias coloniais e, como seu nome indica, tinha sido cenário de mineração que enriquecia coroa de Portugal. Pode-se dizer que havia apenas uma rua poeirenta ou lamacenta, conforme a estação, e ainda rasgadas pelas rodas dos pesados carros de bois.” (Vanda Mendes, 2024).

Os missionários, normalmente chegavam como casais ou famílias, e as esposas e filhas rotineiramente se envolviam nas atividades da escola fundada (Escola Agrícola de Lavras - EAL, depois Escola Superior de Agricultura de Lavras - ESAL). Elas ministravam disciplinas como Artes Domésticas, História Sagrada, Inglês, Matemática, Educação Física. Algumas auxiliavam nas atividades administrativas da escola, atuando como como secretárias, bibliotecárias, diretoras de internato e externato, encarregadas de refeitório. 

O Instituto Evangélico registra, por exemplo, em Prospecto de 1922, os nomes das professoras e conteúdos com os quais trabalhavam: “Charlotte (Carlota) Kemper - História Sagrada e Inglês; Katherine Bockwalter - Artes Domésticas e Educação Física; Miss Charlote Landes – Matemática e inglês; Miss Genevieve Marchant – Inglês. Katharine Bockwalter”, que veio a se tornar esposa do professor e diretor da ESAL John Wheelock, além de atuar como diretora do Internato Colégio Carlota Kemper (a escola de meninas do Instituto Evangélico).


Capa em tecido do caderno com as iniciais CMG (Clara Moore Gammon)
Capa em tecido do caderno com as iniciais CMG (Clara Moore Gammon)
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Primeira página. As lições eram divididas em temas que iniciavam com uma introdução com instruções gerais

Já em 1922, há o registro das professoras “Guilhermina Alves – Artes domésticas e Ruraes, Mary Hall – Pintura e desenho, Martha Glenn Roberts (esposa do Dr. Roberts) – música ao piano e vocal, Charlotte (Carlota) Kemper - História Sagrada e Hattie Tannehill – Pedagogia”. Em Prospecto de 1927 constam “Hulda Sickert – artes domésticas, Emma Knight (esposa do professor Charles Knight) – inglês e Clara Gammon (esposa de Gammon) – pedagogia”.

Um caderno, legado de Clara Moore Gammon, registra lições de culinária e receitas. Acredita-se que tenha realizado cursos sobre o assunto antes de vir para o Brasil. Nos registros, o ano era 1897.

A participação nas Exposições

Muito ativas, participavam das exposições agropecuárias, ministrando cursos, expondo produtos elaborados pelas alunas do Colégio Kemper, para os quais havia inclusive concursos. São atividades ocorridas nos primórdios do século XX, marcando uma participação feminina que deixou registros na  comunidade local.


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Informativo da Exposição Agropecuária de 1922, anunciando “Aulas de Trabalhos Culinários” a serem ministradas pela professora Mabel Davis. O programa incluía Molho branco e seus usos, Biscoitos americanos, Bolos, Sanduíches e saladas, Pudim, Doces e Pão de fubá. (O Município, 1922)

Pela lista de premiações, observa-se que eram ensinados: bordado a mão, crivo, ponto de marca, tecido no tear, costura à máquina, bordado em máquina, remendos, pintura.



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Premiações de costuras, bordados, pinturas e fotografias durante a Exposição Agropecuário de Lavras, de 4 a 9 de setembro de 1922 (O Município, 1922).

As premiações ocorridas durante os certames das exposições serviam como reconhecimento e estímulo para as senhoras, que se dedicavam a aprimorar nos trabalhos de costura e bordados, conforme é relatado em O Agricultor de 1928.


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Trabalhos das senhoras (bordados) durante a 6ª Exposição Agropecuária de Lavras (O Agricultor, 1928).

Além das exposições, em outros eventos, como a Semana de Milho, realizada de 24 a 29 de agosto de 1925, as missionárias tinham também atuação expressiva.


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Sra. Nannie Hunnicutt fazendo demonstrações de pratos de milho (O Agricultor, 1925)

As receitas eram divulgadas e foram publicadas em “O Agricultor”, na secção “O Companheiro do Lar”. Destaque para a receita Pancake de fubá, que ainda utilizava o inglês na sua grafia.

Como resultado destas ações e integração, houve uma permuta de culturas: “a lavrense, construída pelas tradicionais famílias dos bandeirantes e seus descendentes, e a dos americanos, por meio dos seus missionários protestantes”, diz a responsável  pelo espaço Pró-Memória, do Instituto Gammon.

 


Receitas utilizando milho apresentadas na Semana do Milho (O Agricultor, 1925)

Home Economics / Economia Doméstica

Nos Estados Unidos, naquela época, especialmente no Norte, já eram realizados os cursos Home Economics (Economia Doméstica). Os cursos duravam quatro anos, com dois semestres cada um, estabelecidos nos Colleges das universidades americanas. Eram ensinados costura, bordado, cuidados pessoais, etiqueta, culinária, como servir as mesas, cuidados com a casa, contabilidade doméstica, cuidados com bebês e até soroterapia (utilizando animais). Tinham como apoio laboratórios de química, cozinhas experimentais, salas de costura (O Agricultor, dez 1925). Com essa formação, as americanas trouxeram para Lavras a disciplina Artes Domésticas, a qual foi introduzida no sistema de ensino pelo colégio americano que caracteristicamente implantava métodos e sistemas revolucionários de ensino para a época. Essa disciplina adquiriu grande importância e, em 1921, o Instituto Gammon criou o curso de Artes domésticas, no qual eram ministradas matérias tradicionais como português, matemática, inglês e francês, desenho, educação física, história sagrada, música e canto, história, geografia, ciências naturais e matérias muito específicas das artes domésticas, como costura, arte de decoração de casa, enfermagem, puericultura, pronto socorro, arte culinária. 

Conforme relato de Vanda Mendes, no 5º ano as alunas aprendiam a bordar e costurar. Havia uma sala especial com muitas máquinas de costura para essas aulas. No 6º ano estudavam Nutrição e Cozinha. As jovens aprendiam a fazer apenas pratos de origem norte-americana, daí terem sido introduzidos no cardápio lavrense. O pão americano (biscuit) por muitos anos foi vendido na extinta Padaria São Jorge, e o doce de chocolate (fudge) ainda é apreciado. As torradas doces e salgadas; o pudim de pão (bread pudding), apelidado pelos estudantes do Gammon de “angu de macaco”; o sorvete; o “ponche protestante”, assim chamado por não ser alcoólico; os pratos frios; as saladas elaboradas; o “candy”, doce batizado com o mesmo nome de origem e atualmente chamado de “bala quente” - essas são todas contribuições desse período de interação com as missionárias americanas.

O curso de culinária tinha como finalidade aprender a “aproveitar os recursos do país e da localidade para tornar mais variada e mais saudável a alimentação”. No último módulo, aprendiam a preparar comidas para crianças e pessoas enfermas (Prospecto IG, 1924).

Além das aulas de culinária, havia também a preocupação em saber receber pessoas. As alunas então aprendiam a técnica de organizar, adornar e servir um banquete, seguindo as regras de etiqueta, e praticavam durante os jantares feitos no Instituto Evangélico, a “escola dos americanos”, como era conhecido na época, segundo Vanda Mendes, que foi aluna de Artes Domésticas, bem como professora e diretora do Instituto Gammon.

Ainda, pelas informações de Vanda, no 7º ano as moças aprendiam decoração de casa com especialistas vindas dos Estados Unidos. As alunas do colégio conheciam as leis que regiam a estética, sabiam onde e como pendurar os quadros, como arranjar as jarras de flores e como dispô-las nos móveis em salas ou quartos. Como resultado dos ensinamentos da escola, as jovens que se tornam senhoras, passaram a manter suas casas com um aspecto agradável, acolhedor, bonito e ajardinado, conta Vanda.


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Prospecto do Instituto Evangélico com as disciplinas do Curso de Artes Domésticas

Paralelamente ao curso, tinham aulas de Agricultura e Horticultura, nas quais as alunas acompanhavam todo o ciclo da planta, desde a semeadura, o desenvolvimento até a colheita (Prospecto IG, 1921).


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Alunas de Artes Domésticas, Colégio Carlota Kemper (O Agricultor, 1925)

Publicações

A professora Bella Kolb foi responsável pela matéria de Artes Domésticas no Colégio Kemper. Muito atuante, também ministrava cursos e escreveu vários artigos para o periódico O Agricultor. Era filha do reverendo John B. Kolb, pai também de Mary Kolb e de Anne (Nannie) Kolb, segunda esposa de Benjamin Hunnicutt. Após o falecimento de Nannie, Hunnicutt casou-se com Bella Kolb. 

No periódico “O Agricultor”, Bella Kolb era responsável pela secção O companheiro do Lar, onde publicava artigos com informações de saúde e família, culinária e estética, relatos de viagem e receitas. Na edição de junho de 1925, o artigo publicado tinha como tema “Como se deve por e servir a mesa”, com informações de como dispor toalhas, guardanapos, louças e talheres. Os modos de servir que poderiam ser à Ingleza, “Rusa” ou Mixta (grafia da época).

Em outubro de 1925, Bella Kolb publicou um artigo intitulado “A alimentação da família”, ressaltando a importância da boa alimentação para os seres humanos, em especial, as crianças. “Não é a quantidade de comida que uma criança come que a nutre bem, mas sim a qualidade da comida”. A autora ressalta as funções e importância dos diferentes grupos de alimentos, da ingestão de água e de respirar ar puro, sobretudo pela manhã e à noite. É um artigo que, apesar de publicado há 100 anos, parece atual.

 

Receitas

Aos poucos, as americanas foram apresentando receitas típicas. Muitas foram incorporadas no dia-a-dia das lavrenses e acabaram expandindo por todo o País. 

O costume de consumir saladas é um desses exemplos. Na época, era comum o consumo de vegetais apenas cozidos. Nas aulas de culinária, as alunas aprenderam como preparar saladas e consumir verduras cruas. Assim como também houve a valorização do consumo de frutas.

O pudim de pão é outro exemplo. Carlota Kemper ficava indignada ao ver como os brasileiros desperdiçaram pães – não sabiam como aproveitá-los. Assim ensinou a preparar o bread pudding/pudim de pão utilizando os pães “amanhecidos” como são chamados. Os alunos do Instituto apelidaram esta iguaria de “angu de macaco”. Outra forma de aproveitar os pães era fazendo torradas e as consumiam com geleias. Ambas as receitas foram ensinadas pelas americanas. 

Nas festas era servido o ponche “protestante”, assim denominado por não ser preparado com bebida alcoólica. O ponche é uma bebida elaborada com suco e frutas picadas e espumante na sua versão alcoólica.

O preparo dos ovos mexidos, típicos do café da manhã americano, era ensinado às alunas e sua receita foi publicada na edição de “O Agricultor” de 1927, ilustrando um artigo de autoria de Bella Kolb, relatando a importância dos ovos na alimentação familiar.


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Receitas de ovos mexidos e Flor de Ovos. (O Agricultor, 1927)

A grande sensação das alunas era preparar o “Divinity”, um doce típico do sul dos EUA, feito com açúcar, clara e nozes, servido em eventos especiais.

 

O “Fudge”, um docinho de chocolate e que permite algumas variações, também era ensinado nas aulas pelas missionárias e muito apreciado pelas alunas. Receita informada pela D. Vandinha, conforme ensinado pelas americanas:

 

1 copo de leite

2 copos de açúcar

2 colher bem cheia de manteiga

6 colheres de achocolatado ou chocolate em pó (ou 3 colheres de achocolatado e um pedaço de chocolate meio amargo)

Colocar em uma panela alta e levar ao fogo. Deixar ferver (não precisa mexer muito). Quando começar a cheirar o chocolate, tirar uma provinha com a colher e colocar em uma vasilha com água frio. Dando o ponto de “bala média”, desligar, bater um pouco e colocar em uma forma. Quando esfriar, cortar em quadradinhos. Este doce serve como base, podendo ter variações com a adição de amendoim moído, castanhas/nozes trituradas.

O gelo também foi uma novidade para os lavrenses. Conta-se que Carlota encomendou o produto do Rio de Janeiro e o fez chegar até Lavras para apresentar a inovação.Ensinaram também, nas aulas, outras receitas como a preparação de repolho “au gratin”, gelatina, pãozinho americano (biscuit), tortas doces e salgadas, além do sorvete.

O bolo de coco era uma das especialidades de Nannie Hunnicutt. Por muitos anos, era o bolo mais tradicional na família, servido nos aniversários de todos, de reuniões importantes, casamentos. Apenas uma única neta, Jean Hunnicutt Fuser, já falecida, aprendeu e sabia fazer com perfeição. A receita foi publicada na secção “O Companheiro do Lar”, de O Agricultor em 1926.


Capa em tecido do caderno com as iniciais CMG (Clara Moore Gammon)

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Publicação em “O Companheiro de Lar” O Agricultor Julho-1926

Bolo de Coco (Nannie Kolb Hunnicut)
1 xícara de manteiga
2 xícaras de açúcar
3 xícaras de farinha de trigo
4 ovos
4 colheres de pó royal (rasas)
1/2 colher de café de sal
1/2 colher de café de baunilha
1 xícara de leite
Preparo:
A farinha deve ser peneirada antes de medir, depois ajunta-se a esta todos os ingredientes secos e peneiram-se estes juntos três vezes. O açúcar, a manteiga e as 4 gemas devem ser bem batidas até que a massa fique lisa e por último a baunilha e finalmente as claras são colocadas na massa sem bater.

O Suspiro
3 claras
3 xícaras de açúcar
1/2 colher de café de caldo de limão
Batem-se as claras até ficarem bem duras; depois ajunta-se às claras 3 xícaras de açúcar e bate-se por uma meia hora. Esta massa deve ficar lisa e o caldo de limão é posto no fim.
O Bolo depois de quase frio é partido no meio fazendo duas partes. A parte inferior do bolo é coberta com a terça parte do suspiro e por cima desta um terço de um coco ralado.
Coloca-se a outra parte do bolo em cima desta parte enfeitada e cobre-se todo o bolo com o resto do suspiro, usando todo o coco.
O efeito é tão belo quanto delicioso o paladar.

Publicação em “O Companheiro de Lar” O Agricultor Julho-1926

Outras imagens:


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Receita de “Um bolo excellente” (O agricultor, 1928)

Capa em tecido do caderno com as iniciais CMG (Clara Moore Gammon)
Exposição de trabalhos manuais
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Exposição de trabalhos manuais

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D. Carlota Kemper

Receitas de Nannie Hunnicutt (compartilhadas por Telita Hunnicutt e outras netas)

Strawberry Short Cake
2 ½ xícara de farinha de trigo
½ xícara de açúcar
6 colheres (chá) fermento
1 pitada de sal
½ xícara de leite
½ xícara de manteiga

- Misturar todos os ingredientes secos
- Juntar a manteiga e esfarelar com os dedos
- Juntar o leite e trabalhar ligeiramente com as mãos
- Forrar um pirex redondo com esta massa e levar ao forno quente
- Depois de assada, rechear com morangos amassados com açúcar
- Reservar uma porção deste recheio e colocar por cima depois Chantilly e morangos para decorar
- Se quiser, antes de rechear e ainda quente, passar um pouco de manteiga na massar e polvilhe com açúcar e canela.
Mineiro com botas
Fritam-se algumas bananas da terra
Cortam-se tirinhas de queijo mineiro
Coloca-se num prato formando um xadrez, uma camada de banana outra de queijo
Polvilhado com açúcar.
Depois seca-se no forno regular por uns 15 minutos.

Agradecimentos
Este texto conta com informações e relatos da vivência de Vanda Amâncio Bezerra Mendes (conhecida como Vandinha), ex-aluna de Artes Domésticas e ex-professora e diretora do Instituto Gammon, atualmente responsável pelo Pró-Memória do Instituto Gammon. Algumas receitas foram fornecidas por Telita Hunnicutt e suas primas, netas de Nannie Hunnicutt. A todas que carinhosamente nos atenderam e auxiliaram, nossos agradecimentos.

Sponge Cake
6 gemas
3/4 copo de açúcar
1/4 copo de suco de laranja
1/4 copo de água
1 1/2 copo de farinha
1 colher de chá de fermento
1/2 colher de chá de canela
1/4 colher de chá de noz-moscada
1/4 colher de chá pimenta síria
6 claras em neve
1/4 colher de chá sal
3/4 copo de açúcar

Referências:
O Agricultor anno IV, número 16, junho 1925
O Agricultor anno IV, número 3, setembro 1925
O Agricultor anno IV, número 4, outubro 1925
O Agricultor anno IV, número 5, novembro 1925
O Agricultor anno IV, número 5, dezembro 1925
O Agricultor anno V, número 4, julho 1926
O Agricultor anno VI, número 4, julho 1927
O Agricultor anno VII, número 3, maio 1928
O Agricultor anno VII, número 5, setembro 1928
O Município ano 10, número 35 p.2 setembro 1922.

 

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